Sistema de Produção de Uvas Rústicas para Processamento em Regiões Tropicais do Brasil

João Dimas Garcia Maia
Umberto Almeida Camargo

Poda e quebra de dormência

Podas

A poda da videira, quanto ao comprimento, pode ser classificada em curta ou de formação (duas gemas), Figura 1 ; longa ou de produção (6 a 8 gemas), Figura 2, e ainda mista (curta e longa, no mesmo ciclo), Figura 3. Em geral, em regiões tropicais é possível obter dois a dois e meio ciclos anualmente, podendo ser: I) sucessivamente com podas curtas, o que permite a obtenção de safrinhas devido a menor fertilidade das gemas basais de cultivares tradicionais; II) sucessivamente com alternância de ciclos de poda curta e longa, o que possibilita obter safrinhas e safras normais (cheias); ou ainda, III) ciclos sucessivos de podas mistas, em que é possível obter safras médias, uma vez que metade das varas é podada em esporão (poda curta) e metade em varas (poda longa). O esquema de poda a ser adotado, levando-se em consideração a necessidade de concentrar a produção no período seco, quando se obtém a melhor qualidade da uva (sanidade, cor, sabor, açúcares), o sistema mais adequado é o de sucessivos ciclos alternados de poda longa e de poda curta. As podas devem ser realizadas em ramos com 5,5 a 7,0 meses de idade, quando estão lignificados (maduros).

Poda longa

A poda longa de uvas rústicas para processamento pode variar de 6 a 8 gemas uma vez que as principais cultivares tem boa fertilidade de gemas até estas posições. O número de varas por hectares a ser deixado pode variar de 55.000 a 65.000 varas/hectare. Durante a poda devem ser deixadas varas mais uniformes de espessura média, e melhor localizada, ou seja posicionamento horizontal.

Poda curta

A poda curta deve ser realizada deixando-se duas gemas por esporão cerca de 30 a 45 dias após a colheita, correspondendo à cerca de 55.000 a 65.000 esporões/hectare na latada.

Época de poda e quebra de dormência das gemas

Em regiões tropicais, onde a implantação do vinhedo segue principalmente o sistema tradicional, ou seja, plantio de porta-enxertos já enraizados em outubro/novembro e enxertia diretamente no campo em junho/julho do ano seguinte, a primeira poda longa deve ser realizada entre os meses de março a julho do ano seguinte. Plantas formadas a partir de mudas de raiz nua também devem ser submetidas à primeira poda de produção a partir de março do ano seguinte ao plantio, desde que esteja bem formadas, caso contrario devem ser submetidas à poda curta objetivando-se melhorar a estrutura das plantas. Em regiões tropicais são necessários aplicações de cianamida hidrogenada (®Dormex) para promover a quebra de dormência das gemas, e melhorar a uniformidade da brotação. Os ramos a partir de 5,5 a 6,0 meses de idade estão maduros (lignificados) e aptos a serem podados, porém é recomendável ajustar a época de poda de produção para o período de março a julho, para proporcionar colheitas nos período de meados de julho a meados de novembro, quando é possível obter uvas de melhor qualidade em função da menor precipitação pluviométrica neste período, nas regiões sudeste e centroeste do Brasil. A aplicação do produto para promover a brotação deve ser realizada no máximo em 48 horas após a poda, em todas as gemas (G) de esporões (E) e nas últimas quatro gemas de varas (G5, G6, G7 e G8), uma vez que as gemas basais (G1, G2, G3, G4) das varas devem ser deixadas como reserva para o ciclo de poda curta seguinte. Os melhores resultados de brotações tem sido alcançado com aplicações de (®Dormex) nas dosagens de 5,0 % no verão e de 7,5 % no inverno. A maior dosagem é recomendada para períodos quando temperaturas mínimas são inferiores a 18°C, e a menor dosagem para períodos quando as temperaturas mínimas são superiores a 18°C. No verão a dosagem de 5,0 % é suficiente para promover boa brotação (Figura 4). Em geral as cultivares americanas são mais sensíveis ao frio que as cultivares de uvas finas para a quebra de dormência, portanto é recomendável acompanhar as previsões meteorológicas para evitar as podas em períodos quando ocorre queda de temperaturas mínimas para valores inferiores a 13°C. Temperaturas mínimas abaixo deste valor prejudicam a brotação e desenvolvimento de brotos (Figura 5). A aplicação deve ser realizada com uma haste feita com sisal (Figura 1) ou rolo de espuma, usado para pinturas, molhando-se bem as gemas onde se deseja a brotação. Pulverizadores manuais somente podem ser usados em ciclos de poda curta, porém exige maior cuidado nas aplicações devido à possibilidade de percas de produtos por deriva, e irregularidade no molhamento das gemas. Para diminuir a perca de calda por escorrimento normalmente os produtores misturam melaço ou adjuvantes na calda. Para obter melhor eficácia da cianamida hidrogenada, o período entre a aplicação e a ocorrências de chuvas deve ser superior a 2 horas, também devem ser evitadas as horas mais quente do dia, assim como períodos com muito vento.

Poda verde

A poda verde em uvas rústicas para processamento consiste apenas da desbrota para padronizar o número de varas e esporões por hectare; e da desponta de ramos, tanto nos ciclos de produção como nos de formação, objetivando-se controlar o crescimento excessivo dos ramos para evitar o excesso de sombras.

Nos ciclos de poda longa (produção)

Neste ciclo são recomendados: I) a desbrota (quando os brotos estão com cerca de 15 a 20 cm, deixando-se dois brotos por vara); II) a desponta de ramos, quando estes atingirem cerca de 1,2 a 1,3 metro de comprimento. (Figura 5). O desbaste de cachos em geral não é recomendado, podendo a produtividade ser ajustada regulando a quantidade de varas por m² e número de brotos por vara de acordo com a fertilidade de gemas de cada cultivar e peso médio de cachos.

Nos ciclos de poda curta

No ciclo de poda curta consiste de: I) desbrota, quando os brotos estiverem com cerca de 15 a 20 cm, deixando-se cerca de 55.000 a 65.000 ramos definitivos por hectare, no sistema latada; II) a desponta de ramos, quando estes estiverem com cerca de a 1,3 a 1,4 m de comprimento na latada (Figura 6).

Figura 1. Poda longa com aplicação de dormex a partir da 4ª gema.
(Foto: João Dimas Garcia Maia)

Figura 2. Poda curta em esporões (com duas gemas).
(Foto: João Dimas Garcia Maia)

Figura 3. Poda mista, varas e esporões.
(Foto: João Dimas Garcia Maia)

Figura 4. Boa quebra de dormência no verão, cv. Isabel, Dormex a 5%.
(Foto: João Dimas Garcia Maia)

Figura 5. Brotação deficiente devido a baixas temperaturas - cv.BRS Rúbea.
(Foto: João Dimas Garcia Maia)

Figura 6. Poda verde, desponta de ramos com 1,3 a 1,4 m, sistema latada
(Foto: João Dimas Garcia Maia)

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